#1 Beavis Files - Heroine (parte 1)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 § 0

- Então eu me vi em uma situação de perigo novamente.

Soluços já não davam conta da pressão que eu sentia sob minhas costelas, rasgar cada pedaço do cenário com os olhos já não era satisfatório. Estava inerte, sem reação. Não, não era assim: eu tive a pior da reações.
Meu pai, me desculpe, mas esse não é o William. Frente ao espelho estava um garoto qualquer, arranhando as bochechas com unhas estragadas, com olhos de ninguém. Como se estivesse para ganhar o melhor dos prêmios, ri em desgraça do falso, sentindo a ardência do derreter de minha máscara. Estava grudada a face, sim, estava! Hilariante. Uma perfeita comédia trágica, digna de minhas atuações, ora.

As lágrimas travaram, como um ator de emoções calculadas. Esfreguei a cabeça, mais uma vez, mais uma vez, o ciclo do palhaço. Onde está a plateia? Hoje está um pouco vazio. Os espectadores me abandonaram?

Nada mais me restava. Nenhum orgulho, nenhum amor por mim mesmo. Nem mesmo aquela paixão que havia sido colada com pressa no peito. A tentativa de arrancá-la fora falha, pela insistência daquela cola, a coisa padecia pelos mal tratos de minha alma.

Cale-se, Não tenho tempo para rodeios, filosofias e outras coisas torpes; precisava de minha Heroína.

Anote a receita:
  • 1 colher de desespero.
  • 1 viciado.
  • 1 dose diacetilmorfina (a gosto).
  • 1 seringa.
  • 1 veia.
  • 1 picada.

Ou se preferir, repita este ritual pagão. Um sacrifício: a minha própria sanidade, representada em meu braço derramado sob a pia asquerosa. Finquei a agulha com força, mais suicida que o próprio ato, as lágrimas surgiram novamente, desta vez, de dor da carne. O dedão escorregou junto com o líquido que ia se derramando em meu sangue sujo, o sangue azul que você, meu pai, me deu. Aos poucos ficava encharcado daquela substância tóxica, entorpecendo meu corpo físico e mental.

Ardia tanto que queimava, queimava tanto que me arrependia. Uma sensação momentânea, que talvez fosse um sorriso da Esperança. Mas não era. Claro que não.
Lá estava o Delírio, também sorrindo para mim. Um sorriso completo e sincero. Peguei a sua mão, a passagem para seu mundo colorido.

(...)
Continua. Sempre continua. Para sempre, e depois, mesmo.

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Comentários do trecho.
Escolhi uma das minhas passagens preferidas do William para a primeira postagem. Trata-se do momento em que ele se encontra totalmente abandonado e cativado pelo próprio personagem que havia criado para preencher desejos caprichosos cheios de Luxúria e Vaidade.
Contarei-lhes com mais detalhes depois, mas para ficar mais fácil, já que a cabeça da autora só funciona em fragmentos de memória, o fato é seguinte: Thomas, o novo parceiro, cede para Samuel, o velho traiçoeiro. Em meio a esses novos sentimentos despertados pelo ciúmes não planejado, temo um bloqueio mental: William se recusa a acreditar que Samuel abandonou-o sem dizer uma palavra e agora voltou, aparentemente, com o plano de destruir cada fortaleza que William construiu (mesmo que falsas).

Na próxima parte.
A sedação desencadeia seu despertar, e então, suas reais preocupações. Prevejo um trecho mais profundo, muito ligado a infância de William e Samuel.

"- A heroína corria pelos meus vasos sanguíneos numa velocidade alucinógena!
Caí em cima do vaso sanitário em estado de sedação. Uma onda de pura felicidade, num mar de falsas razões, me engolia com gana. (...)"



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